segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O ASSASSINO DE WITHECHAPEL - Parte I

Por R. Xavier

Parte I
Londres, Inglaterra – 1888

Nessa época de iluminação a gás, quando mulheres usavam anquinhas e os homens, sobretudo, a Inglaterra experimentou um rápido influxo de imigrantes, que gerou uma superpopulação nas principais cidades britânicas. Particularmente nos distritos de East End e Whitechapel em Londres. Com a superpopulação aumentou drasticamente também, a falta de moradia e o desemprego.

Assim, resultou-se uma imensa classe baixa onde muitos estavam em situação de pobreza endêmica. Situação esta que levou Inúmeras mulheres à prostituição. Alguns, para sobreviver, abriram bordéis que dividiam espaço com residências em becos apertados e estabelecimentos (casas de ópio) onde viciados se reuniam para fazerem uso de entorpecentes.

Os problemas econômicos teve como consequência também, uma constante tensão social nas ruas londrinas, principalmente contras os estrangeiros e a xenofobia passou a ser diária.

O East End de Londres oferecia um ambiente assombroso, digna dos filmes de terror, sem contar os moradores bêbados que saiam dos bares à rua onde brincavam crianças. Um ambiente imundo, perigoso, onde a fome matava, assim como a cólera, coqueluche e o câncer. Não é surpresa que a violência reinava e a omissão de socorro era muito comum.

Foi nesse ambiente que uma série de assassinatos com cinco vítimas (oficiais), que chamou atenção pela monstruosidade e frieza, deixou o povo londrino em pânico. Oficialmente, todas as vítimas eram mulheres e estas tinham como profissão a prostituição. As vítimas foram atacadas com extremo sadismo, que era como se o assassino as odiasse com paixão. Todas eram encontradas degoladas, retalhadas, vísceras extraídas e muitos pedaços enviados a Scotland Yard com bilhetinhos que supostamente estaria escrito com o sangue das vítimas. Cada vítima teve um grau de violência maior que a outra e após a quinta vítima, que foi a que mais sofreu mutilações, os assassinatos cessaram.

Os assassinatos ocorreram nos distritos de Whitechapel, Spitalfields, Aldgate e a cidade de Londres, dando uma área de atuação de dois quilômetros.

Tal lembrança desse assassino provoca calafrios na espinha de muitos, pois provocou terror não só a Londres, mas como também nos Estados Unidos e Europa Ocidental, sendo assim, acreditando alguns criminologistas, que ele tenha fugido para América. Esta é uma das tantas teorias sem comprovações.

A fama deste assassino foi tanta que nos tempos de hoje é protagonista dos mais variados contos e romances.

A comoção provocada, através da imprensa, quando o corpo da primeira vítima foi encontrado, fez com que a polícia começasse a agir o mais depressa possível. Muitos suspeitos destes crimes foram detidos de maneira injusta. A polícia também investigou alguns suspeitos judeus, mais por preconceito do que por provas; e os crimes continuaram.

A identidade deste assassino é envolta de muito mistério. Não se tem certeza se o assassino foi um homem ou uma mulher. Apesar de que na época, houve especulações de que a Scotland Yard havia descoberto o verdadeiro autor dos horrendos crimes, mas ocultou esta informação. Talvez por esse motivo a identidade do assassino nunca fora conhecido.

O mais intrigante e misterioso, e até assustador, é que ninguém até hoje tem conhecimento do verdadeiro motivo que levou esse maníaco a cometer tais crimes. Que fator predominante teria dado início aos crimes? Porque somente cinco vítimas? Porque somente prostitutas? Porque uma morte mais violenta que a outra em ordem crescente?

Muitos acreditam que o assassino não mais matou, pois havia cumprido a missão que se propusera.

Muita dessas perguntas não se sabe a resposta. Somente são confirmados os fatos de que cinco prostitutas foram mortas com extrema crueldade, uma mais violenta que a outra, e estas mortes são creditadas a este psicopata que enviava bilhetes a polícia junto com supostos pedaços das vítimas.

APONTAMENTOS E ANOTAÇÕES DOS CASOS

1 - Todas as vítimas eram mulheres, tinham como profissão a prostituição e haviam ingerido bebidas alcoólicas;
2 - Sempre atacava nas primeiras horas do dia dos finais de semana ou em feriados;
3 - Nenhuma das vítimas se conhecia;
4 - Menos a quinta vítima, eram mulheres da faixa de 40 anos;
5 - Menos a quinta vítima, eram sufocadas (estranguladas) antes de serem mortas tendo a garganta cortada;
6 - Menos a quinta vítima, foram mortas em locais abertos (ambientes externos);
7 - Somente a quinta vítima foi morta em local fechado (ambiente interno);
8 - Todas foram mortas pela mesma pessoa;
9 - Nos locais dos crimes, não havia evidências de luta, sugerindo assim que os ataques foram desferidos de forma repentina e a traição, quando a vítima estava em posição que impossibilitava qualquer reação (de costas, e na última vítima, deitada);
10 - As mutilações foram infligidas por pessoa com algum conhecimento científico ou anatômico ou até mesmo conhecimento técnico de açougueiro, e pelas características das feridas indicavam que ele era destro;
11 - A arma do crime era uma lâmina resistente e retilínea de no mínimo 15 cm de comprimento, muito afiada, pontuda e de cerca de 3 cm de largura;
12 - Pelas características dos crimes, o assassino era homem de grande frieza, audacioso e solteiro, já que saia altas horas da noite sem levantar suspeita, ou mantinha uma ocupação que justificasse essas saídas. Devia ser morador de Whitechapel. Seu perfil psicológico seria de um sujeito com ataques periódicos de mania de homicida e sexual, mas aparentando aos demais como uma pessoa normal, calma e inofensiva.
13 - As cartas escritas (se é que realmente escreveu alguma) pelo assassino sugerem que ele era intelectualmente arrogante;

MODUS OPERANDI

1 - Escolhia suas vítimas denominadas infelizes (prostitutas), principalmente as que estavam embriagadas e sozinhas;
2 - Sempre atacava nas primeiras horas do dia dos finais de semana ou em feriados;
3 - Sempre atuava em um local escuro e isolado;
4 - Após matá-las por estrangulamento, deitava-as de costas, cortava-lhes a garganta da esquerda para a direita em dois cortes e as estripava;

PERFIL DO ASSASSINO

1 - Não era necessário que ele conhecesse o East End, já que as prostitutas o levavam para um local tranquilo;
2 - Possuía conhecimentos da anatomia humana, mas não seria necessariamente um médico;
3 - Motivo real para os homicídios;
4 - Possuía ódio extremo pelas mulheres, conclusão atingida pelos tipos de ferimentos desferidos às vítimas;
5- Tranquilidade enquanto cometia os crimes, pois os locais onde atuava era de pouco movimento e extremamente escuro.


Na próxima postagem abordaremos as vítimas oficiais e alguns dos suspeitos.



sábado, 18 de janeiro de 2020

O ASSASSINO DE WITHECHAPEL - Parte II

Por R. Xavier



Os assassinatos deste, que é considerado o pai dos serial killers, alarmou o mundo inteiro com sua astúcia e crueldade. Vários jornais cobriram exaustivamente os assassinatos e consolidaram a sua fama internacionalmente.
As técnicas de investigação na época, ainda gatinhavam e após o cessar dos assassinatos, as investigações continuaram e centenas de pessoas foram interrogadas.
Ele não foi o primeiro e nem o pior deles, mas com toda certeza é o mais famoso. Houve outros seriais killers mais atuante do que este, porém, o que o torna único é que nunca foi pego e sendo assim, sua identidade é um total mistério.
Foram creditados à "conta" desse assassino, onze homicídios, onde, seis são considerados não oficiais e cinco oficiais (canônicas), sendo estas cinco que serão apresentadas.





A CRONOLOGIA MACABRA

31 de agosto de 1888 – Sexta-feira

1ª vítima: Mary Ann Nichols, conhecida como Polly Nicholls, nascida em 26 de agosto de 1845, 43 anos, 1,57 Mts, faltavam-lhe cinco dentes frontais, cabelos castanhos, quase grisalhos e compridos.
Local do crime: Na viela Buck’s Row (atual Durward Street).
Foi encontrada: Entre 03h40 e 03h45, pelo condutor de bondes Charles Cross que por curiosidade foi verificar algo caído ao chão, que pensava ser um fardo, quando estava indo ao trabalho. Possivelmente ainda continha sinais de vida. O policial Jonh Neil atendeu esta ocorrência e cirurgião dr. Llewellyn chegou 15min depois. 
Condições da vítima: Não apresentava sinais de luta. Ela estava deitada de costas, com a mão esquerda levantada e apoiada no portão fechado. A saia estava levantada acima dos quadris. Os olhos estavam arregalados ao extremo e a garganta com dois cortes profundos. O primeiro corte seccionou por completo a traqueia e a goela, e o segundo atingiu a vértebra. Ao ser levada ao hospital para exames mais detalhado, descobriu-se que ela também fora esviscerada. Todo o abdome, do externo à vagina fora retalhado por uma lâmina afiada dentre outras mutilações. Não lhe faltava nenhum órgão e não havia vestígios de sêmen. Havia também hematomas na parte inferior do rosto, possivelmente causado por pressão de dedos.

O dr. Llewellyn concluiu que o assassino possuía conhecimentos rudimentares de anatomia humana, já que havia atacado todas as partes vitais.

Robert Anderson foi nomeado como comissário assistente, indica Donald Swanson para chefiar o caso e nomeia o Inspetor Frederick George Abberline para investigar o caso.

1 de setembro de 1888 – Sábado

Willian Nicholls reconhece e identifica o corpo de Mary Ann Nicholls, sua ex-esposa.

8 de setembro – Sábado

2ª vítima: Annie Chapman, conhecida como Dark Annie, nascida em setembro de 1841, viúva, 47 anos, 1,52m, branca, cabelos castanhos e ondulados, olhos azuis e lhe faltavam os dois dentes da frente. Apesar de ter problemas com bebidas não era descrita como alcoólatra. Seu nome de batismo era Annie Eliza Smith.
Local do crime: Hanbury Street, 29.
Foi encontrada: Por John Davis, morador da hospedaria da Hanbury Street, nº 29, às 06h00 quando descia ao térreo da hospedaria logo depois de acordar. O inspetor Chandler da Divisão H atendeu a ocorrência e o dr. George Bagster Phillips, cirurgião policial da divisão, examinou o corpo.
Condições da vítima: Não apresentava sinais de luta. Estava deitada de costas com a mão direita esticada e com a palma aberta para cima, a esquerda estava sobre o seio esquerdo. A cabeça estava voltada ao lado direito. As pernas estavam dobradas. A roupa estava levantada até os joelhos. A garganta estava dilacerada, praticamente a cabeça estava separada do corpo. O abdome aberto. Os intestinos arrancados e depositados acima do ombro esquerdo. Não havia vestígios de intercurso sexual recente. A vagina e o útero foram totalmente removidos e não encontrados.

Em uma das extremidades, perto de um torneira do pátio, o Dr. Phillips descobriu um avental de couro encharcado de água jogado, dias antes do crime, por um dos moradores da hospedaria, igual ao que os açougueiros usavam em seu ofício. Com esta descoberta, os sensacionalistas deram o nome de “Avental de Couro” ao assassino misterioso.
O dr. Phillips declarou que  Annie Chapman fora asfixiada ou estrangulada; depois deitada de costas, teve a garganta agredida por dois cortes, ambos da esquerda para a direita, por uma lâmina afiada, de aproximadamente 15 a 20cm. As mutilações foram feitas após a morte dela. E concluiu que a “obra” foi feita por pessoa com conhecimento em anatomia humana, talvez um legista acostumado em fazer necropsia, devido a precisão e rapidez das mutilações em um ambiente escuro; já que, mesmo com vinte e três anos de experiência, não conseguiria o mesmo resultado do assassino.

10 de setembro de 1888 – Segunda-Feira

George Lusk é nomeado presidente do Comitê de Vigilância de Whitechapel. Este comitê foi uma iniciativa privada de comerciantes e empresários do East End com o objetivo de suprir o déficit de policiais, auxiliando no patrulhamento e apreensão de criminosos.

Jonh Pizer, 33 anos, judeu polonês, exercendo a função de sapateiro, foi apontado em ser o dono do avental de couro, pois se encaixava na descrição feita por uma testemunha. Tinha álibi para as duas noites em que os assassinatos haviam ocorrido. Mas sua fama de violento, com passagens na polícia por agressão e por isso odiado pelos vizinhos, motivou o detetive-sargento Willian Thicke a fazer uma busca em sua casa onde foram encontradas cinco facas afiadas, de cabo longo, que Pizer alegou utilizá-las em seu ofício. Para o detetive Willian, com estas “evidências”, John Pizer foi preso pelo assassinato de Annie Chapman.
Com a prisão de John Pizer, a população judia foi molestada e até agredida nas ruas, gerando um surto repentino de anti-semitismo. Nesta situação, os judeus de Whitechapel não se sentiam em segurança. A polícia enviou notas oficiais à imprensa comemorando a prisão.

“Às nove horas da manhã de hoje (10 de setembro de 1888), o detetive-sargento Willian Thicke, da Divisão H, logrou êxito em capturar o homem conhecido como Avental de Couro. Não há dúvida de que é ele o assassino, pois de posse dele foram encontradas muitas facas de lâminas afiadas”.

Com o desenrolar dos fatos posteriores, a defesa de John Pizer apresentou um álibi insuplantável, para o assassinato de Polly Nichols; ele estivera em um albergue, sendo confirmado pelo proprietário. Já o álibi para o assassinato de Annie Chapman, era questionável por ter sido apresentado por parentes zelosos.
Com o fato de Pizer ser um Judeu, uma onda de xenofobia contra este povo deu inicio. As perseguições eram justificada por acreditarem que ninguém da sociedade inglesa poderiam ter cometidos tais crimes, e que somente poderia ser um imigrante.
Logo a polícia dirigiu sua atenção a outros judeus; entre eles, o suíço Jacobs Isenschmid, que trabalhava em seu matadouro na Elthorne Avenue. Jacobs tinha problemas psicológicos e ficava violento quando tinha seus surtos. Jacobs não se encontrava em casa nas noites dos assassinatos e por isso foi denunciado. Foi interrogado e apontado como sendo o Avental de Couro, porém constataram que ele era demente e o internaram no Hospício Grove Hall.

12 de setembro de 1888 – Quarta-Feira

A Sra. Darrel identifica o corpo de Annie Chapman.

27 de setembro de 1888 – Quinta-Feira

A Central News (Agência Central de Notícias) recebe uma assustadora carta escrita com tinta vermelha. A carta foi enviada à Scotland Yard em 29 de setembro de 1888.

“Caro Chefe,
Não me canso de ouvir que a polícia já me pegou. Rio quando eles dizem espertos, dizem que estão na pista certa. Aquela piada do avental de couro me deu cólicas de tanto rir.
Estou caçando meretrizes e só vou parar de estripá-las quando eu for apanhado. Que belo trabalho o último! Não dei à senhorita nem tempo de gritar. Como é que eles vão conseguir me pegar? Eu gosto do meu trabalho e quero recomeçar. Em breve vocês terão notícias minhas e de minhas gracinhas.
Guardei um pouco daquela coisa vermelha, apropriada, numa garrafa de gengibirra, desde o último trabalho, para escrever, mas ficou meio duro feito cola, e não deu para usar. A tinta vermelha fica bem, espero.
No próximo trabalho, vou cortar as orelhas da senhorita e mandá-las para a polícia, só para me divertir. Guardem esta carta, até que eu faça mais um servicinho, depois podem publicá-la à vontade. A minha faca está tão bonita, tão afiada, quero voltar a trabalhar logo, assim que tiver uma oportunidade. Boa sorte.

Sinceramente, seu, Jack, o Estripador


Agora o assassino tinha um nome.


30 de Setembro de 1888 – Domingo

3ª vítima: Elizabeth Stride, conhecida como Long Liz, nascida na Suécia em 27 de novembro de 1843, 44 anos, branca, olhos azuis, cabelos castanhos escuros e crespo, 1,58m e extremamente magra (esquelética). Seu nome de batismo era Elizabeth Gustafsdotter.
Local do crime: Dutfield’s Yard, um escuro beco da rua Berner Street (atual Henriques Street).
Foi encontrada: Pelo vendedor de bijuterias Louis Diemshurtz à 01h00, que vê algo caído ao chão após seu pônei, que puxava uma carroça com mercadorias,  ter empacado sobressaltado.
Condições da vítima: Estava deitada sobre o lado esquerdo com o rosto virado para o muro e as pernas dobradas (esticadas para cima) e com a garganta cortada. Em sua mão esquerda encontrava-se um pacote de Cachous (pastilhas utilizada por fumantes para adoçar e refrescar a boca).

Louis Diemshurtz estremeceu ao perceber que ela acabara de falecer, pois constatou que o cadáver ainda estava quente e que por pouco não surpreendera o assassino.

4ª vítima: Catherine Eddwoes, conhecida como Kate Conway, nascida em 14 de abril de 1842, 46 anos, olhos castanhos, cabelos ruivo escuro, estatura baixa, magra e possuía uma tatuagem com tinta azul em seu antebraço esquerdo (iniciais de seu ex-marido Thomas Conway).
Local do crime: Mitre Square.
Foi encontrada: A 200 metros da terceira vítima pelo policial Edward Watkins às 1h45 quando fazia a sua ronda.
Condições da vítima: Ela estava deitada de costas em meio a uma poça de sangue com o rosto destroçado e voltado ao ombro esquerdo. Os braços estavam estendidos ao longo do corpo com as palmas das mãos voltada para cima. A perna esquerda estava esticada e a direita dobrada. A garganta cortada transversalmente. As pálpebras dos olhos arrancados. Sua barriga foi retalhada deixando expostos os órgãos internos. Parte de seu intestino foi enrolada em seu pescoço. O lóbulo da orelha direita foi cortado.

A polícia começou a vasculhar a área em torno da cena do crime na tentativa de localizar suspeitos, testemunhas ou alguma evidência. Às 03:00 hs da madrugada, na Goulston Street, o policial Alfred Long encontrara um xale de seda ensanguentado no corredor que conduzia à escada dos números 118 e 119. Ao olhar a parede acima da onde achou o fragmento, viu uma inscrição (com uma das palavras escrita errada) feita com giz branco:

“The Jewes are not the men that will be blamen for nothing”.
“Os Juldeus não serão os homens que levarão a culpa por nada”.

Quando o superintendente de Polícia Thomas Arnold chegou ao local, identificou  o pedaço de vestido rasgado como pertencente ao de Catherine Eddowes. Então designou aos detetives Hunt e Halse preservar o local e fotografar a pichação ao clarear do dia.
Charles Warren, informado sobre a pichação, se desloca até o local.
Aproximadamente às 05h00 da manhã, Warren chega ao local da pichação e em tem uma conversa reservada com o superintendente. O superintendente então, visivelmente desorientado, determinou aos investigadores Hunt e Halse que a mensagem fosse apagada. Ao ouvir a ordem, o inspetor do major Smith, James MacWilliam, que havia chegado ao local, argumentou que seria um erro grave apagar uma prova que poderia indicar pistas valiosas para identificar o assassino. Warren então explicou que ele temia que com o nascer do sol e o começo do expediente comercial a mensagem seria vista e o sentimento anti-semita, já então amplamente aflorado, aumentasse ainda mais entre a população. Assim o detetive Halse propôs que poderiam manter a pichação em segredo ou então apagar somente a palavra “juldeus”. Warren irredutível apanhou ele mesmo uma esponja e apagou os dizeres. A inscrição foi retirada aproximadamente às 5h30 da manhã.
Logo a seguir o major Smith retornara ao local da pichação e ficara cego de raiva ao ser informado pelo inspetor James MacWilliam sobre a atitude de Warren.
Exames posteriores indicaram que o rim esquerdo de Catherine Eddowes havia sido removido.

1 de outubro de 1888 – Segunda-Feira

Thomas Coram encontra uma faca manchada de sangue em Whitechapel Road, com uma lâmina de 22,5 cm.

A Agencia Nacional de Notícias recebeu um cartão postal com um estilo similar a carta anterior.

“Desta vez obtive um evento duplo. A segunda gritou um pouquinho; não deu para terminar logo. Não houve tempo para cortar as orelhas e mandar para a polícia. Obrigado por guardarem a carta anterior até o meu novo trabalho”.


Sinceramente, seu, Jack, o estripador.








2 de outubro de 1888 – Terça-Feira

George Lusk envia uma petição ao Ministério do interior solicitando uma recompensa oferecida pela polícia pela captura de Jack, o estripador.
Le Grand e Batchelor, detetives particulares, encontraram um ramo de uvas em um ralo perto do local onde o corpo de Elizabeth Stride foi encontrado.

7 de outubro de 1888 – Domingo

George Lusk escreve ao Ministério do Interior, solicitando o perdão para o cúmplice, caso houvesse, do estripador na esperança que esse o denunciasse.

16 de outubro de 1888 – Terça-feira

Uma carta datada em 15 de outubro de 1888, e uma caixa foram recebidas por George Lusk, do Comitê de Vigilância de Whitechapel.


“Do inferno,
Sr. Lusk
Sir,
Mando aqui a metade do rim que tirei da mulher, conservei para o senhor; a outra metade; fritei e comi; estava muito bom. Se o senhor esperar mais um pouquinho, eu talvez mande a faca que fez o serviço.
Assinado
Quero ver
o senhor me pegar,
Sr. Lusk”.








O rim foi enviado para ser analisado pelo Dr. Openshaw, o conservador patológico do Museu do Hospital de Londres. Após vários exames, foi constatado que o rim fora conservado em álcool etílico e que possivelmente pertenceria a Catherine Eddowes.
O sapateiro Jonh Pizer, continuava preso quando estes dois crimes ocorreram e por consequência disto, foi libertado.

6 de novembro de 1888 – Terça-feira

Sir Charles Warren emite um memorando a Secretaria do Interior tentando justificar seus atos referente o apagamento da escrita na parede deixada pelo assassino.

8 de Novembro de 1888 - Quinta-feira

O Sr. Charles Warren é demitido.

9 de Novembro de 1888 – Sexta-feira

5ª vítima: Marie Jeanette Kelly, conhecida como Ginger. Possivelmente nascida em Limerick na Irlanda em 1863, 25 anos, cabelos loiros, pela clara, alta, olhos azuis, bonita e agradável. Deixou a prostituição quando se casou com Joseph Barnett em 8 de abril de 1887, mas retornou às ruas quando houve a separação em 30 de outubro de 1888.
Local do crime: Dorset Street, 26, Pátio do Miller, quarto nº 13.
Foi encontrada: Por Thomas Bowyer (também conhecido por Indian Harry), às 10h45 quando foi cobrar o aluguel. Harry era assistente de John McCarthy dono do quarto nº 13.
Condições da vítima: Estava deitada na cama com as orelhas decepadas. Seu rosto foi retalhado e descarnado até os ossos. Os seios extirpados. O abdome, aberto. O braço esquerdo estava preso ao corpo por uma fina tira de carne. O nariz fora arrancado. Pedaços do rim, do útero e de um dos seios estavam debaixo do travesseiro da vítima. O outro seio estava aos pés do cadáver. O fígado estava entre as pernas perto da vagina. O intestino fora retirado e depositado ao lado direito do corpo. Pedaços da vagina e do útero se encontravam em uma mesa ao lado da cama que se encontrava o cadáver. Sua perna direita estava esfolada do quadril ao joelho, expondo o fêmur e o coração foi arrancado e não encontrado.


Exames posteriores constatariam que Marie Jeanette Kelly estava grávida.

Depois da morte de Kelly, não se ouviu mais falar de Jack, o Estripador.



ALGUNS DOS SUSPEITOS

Sempre houve suspeitas que a Scotland Yard conhecia a identidade de Jack, o estripador, mas por motivos desconhecidos escondem essa informação permanecendo um mistério por muitos anos. Mesmo com o silêncio da polícia, houve vazamento de informações referente ao caso, apontando alguns suspeitos que foram:



Príncipe Albert Victor Christian Edward
Quem era: Duque de Clarence, neto da rainha Vitória, portador de sífilis cerebral e bissexual. Morreu em 14 de janeiro de 1892, vítima da sífilis.
Indício: Fazia dissecações de animais em fazendas da família na Escócia e era frequentador assíduo de bordéis londrinos.
Motivo: Possivelmente estava sendo vítima de chantagem de prostitutas. Primeiro, ameaçavam em tornar pública, a vida mundana do príncipe. Segundo, Marie Jeanette Kelly queria reivindicar os direitos de seu filho, supostamente de Albert. Terceiro, complicações psicológicas, talvez em decorrente da sífilis cerebral.



James Kenneth Stephen
Quem era: Tutor e companheiro do príncipe Albert por sua própria reivindicação. Com o convívio diário é possível que tenha se tornado seu amante. Morreu em 3 de fevereiro de 1892. Suspeita-se que o deixaram morrer de fome no asilo de loucos do Hospital de Saint Andrew em Northampton.
Indício: Foram encontrados vários poemas escritos por ele que sugeriam um ódio irracional pelas mulheres e que seus textos descreviam sobre os assassinatos. Ele acreditava que as mulheres eram responsáveis pelo declínio dos homens.
Motivo: Ciúmes. Talvez do suposto casamento de Albert com uma irlandesa católica e plebeia, sendo as cinco prostitutas testemunhas desse fato ou a gravidez de Marie Jeanette Kelly. A mais aceita é por raiva e vingança contra o Duque de Clarence, quando este pressionado pela família real, rompeu o relacionamento homossexual que tinham.


Sir Willian Withey Gull
Quem era: Conhecido como Dr. Willian Gull. Médico efetivo da rainha Vitória e do príncipe Albert Victor Christian Edward. Tratou com dedicada atenção o problema que o príncipe Albert sofria, quando este foi internado por causa de uma de suas crises.
Indício: Pela profissão, conhecia a anatomia humana e fora visto nos bairros pobres do leste londrino, numa das noites homicidas do estripador.
Motivo: Para evitar escândalos. Primeiro, esconder um suposto casamento do príncipe Albert com uma irlandesa católica e plebeia, sendo as cinco prostitutas testemunhas desse fato. Segundo, para que não fosse reconhecido um suposto filho de Marie Jeanette Kelly com o príncipe Albert. O pedido desse “serviço” teria vindo da própria rainha Vitória.


Walter Richard Sickert
Quem era: Famoso pintor da época. Nasceu em 31 de maio de 1860 em Munique, na Alemanha. Morreu em 1942.
Indício: Tinha obsessão em fazer pinturas de prostitutas nuas e adormecidas, ou mortas. 
Motivo: Gostava de fazer pinturas de mulheres mortas e nuas. Sickert era portador desde criança de uma deformidade no órgão sexual que o traumatizaria severamente quando adulto; além disso, sempre demonstrou uma personalidade extravagante e deturpada.




Dr. Thomas Neill Cream
Quem era: Médico londrino.
Indício: Envenenou quatro prostitutas com estricnina. Foi condenado à forca em 1892 por esses crimes.
Motivo: Ódio pelas prostitutas.

As suspeitas sobre Neil foram descartadas por estar preso nos EUA na época dos assassinatos.






Joseph Barnett
Quem era: Ex-marido de Marie Jeanette Kelly. Trabalhava como porteiro no Mercado de Peixe Billingsgate. A separação foi devido a demissão de Joseph e o retorno de Marie às ruas.
Indício: Nunca escondeu a aversão e o ódio da profissão que sua companheira escolhera.
Motivo: Pensava que matando suas colegas faria com que ela desistisse da prostituição. Matou-a por não ter êxito em seu plano ou porque ela estava grávida de um cliente.




Francis Tumblety
Quem era: Um suposto médico americano. Afirmava ser diplomado em medicina, mas era considerado um curandeiro e charlatão, indicando assim que seu diploma poderia ser falso. Foi preso certa vez em 7 de novembro de 1888 por comportamento indecente (homossexualismo) com quatro homens mais jovens e solto. Logo após o último assassinato foi preso novamente pelo mesmo motivo e solto sob fiança em 16 de novembro de 1889 e voltou para os E.U.A. com nome falso de Frank Townsend. Morreu em ST. Louis em 1903 devido a uma doença cardíaca.
Indício: Visitava Londres frequentemente e costumava colecionar órgãos humanos, como úteros de mulheres.
Motivo: Descobriu que sua adorada esposa era prostituta e com isso passou a ter um ódio doentio das mulheres.


James Maybrick
Quem era: Comerciante de algodão. Maybrick faleceu em 8 de junho de 1889, assassinado por envenenamento, administrado por sua esposa Elizabeth Maybrick.
Indício: Em março de 1991, Tony Devereux entrega um diário a Michael Barrett, onde Maybrick se intitulava ser Jack, o estripador.
Motivo: Conforme informes do diário, Maybrick descobre que sua esposa tem um amante e a partir de então passa a ter um ódio extremo pelas prostitutas.




Sir John Williams
Quem era: Ginecologista das filhas da rainha Vitória e fundador da Biblioteca Nacional do País de Gales. Pouco depois da onda de crimes terminarem, sir John sofreu um colapso nervoso, desistiu de praticar a medicina e voltou a viver no País de Gales.
Indício: No ano de 2005, um de seus descendentes estava estudando a história da família quando encontrou uma caixa com objetos pessoais de sir John, incluindo uma faca, três slides médicos e diários com as páginas referentes a 1888 arrancadas. Descobriu-se também que, além de seu consultório elegante na Harley Street, sir John tinha uma clínica em Whitechapel, onde tinha acesso às prostitutas que frequentavam a região. Suas anotações médicas mostram que ele realizou um aborto na primeira vítima do Estripador, Mary Ann Nichols, em 1885.

Motivo: sir John poderia ter ficado enfurecido com as prostitutas que via engravidarem, enquanto sua própria esposa não podia ter filhos, e que as matou por vingança ou para usar seus órgãos em pesquisas em busca de uma cura para a infertilidade.




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A PRÁTICA DE TRILHAS E ACAMPAMENTOS

Por R. Xavier


A prática de trilhas e acampamentos, é uma forma de se exercitar e de se conectar com a natureza, ajudando a combater o estresse do dia a dia.

É um "mundo" diferente do nosso cotidiano, pois há pouca, ou até mesmo nenhuma, conexão com tecnologia, água encanada, eletricidade, etc. Estará em um ambiente onde o luxo e a moda, não tem vez.

Somente quem pratica esse "estilo de vida", sabe o quanto é prazeroso o cheiro das plantas, o barulho dos animais silvestres, o som quase hipnotizante dos rios e cachoeiras. É nesse ambiente tranquilo, que fazemos uma reflexão sobre a nossa vida, sendo perfeito para se conectar a nós mesmos. Assim podemos conhecer nossos limites (físicos e psicológicos), nos possibilitando aceitar e lidar com eles.

Porém, para essa prática, não é só sair caminhando por uma trilha. É necessário um mínimo de conhecimento e planejamento.

O planejamento vai depender do tipo de trilha que vai enfrentar (curta, longa, com acampamento) e nível de dificuldade (fácil, médio, difícil), da variação climática e do equipamento necessário. A eficácia do conforto e da segurança será conforme o planejamento adotado.

Abaixo listarei o que é preciso para se fazer uma caminhada (trilha) e/ou até mesmo um acampamento. Para o texto não ficar muito longo, adicionei links para outras páginas de informações referentes.


VESTUÁRIO

Para a trilha:
- Calça: Deve ser confortável mas que ofereça proteção. As calças bermudas são as mais utilizadas em dias secos e quentes, e as impermeáveis em dias de chuva.
- Camiseta: A mais utilizada é conhecida como dry fit, pois obtém uma secagem rápida do suor sem impedir que a pele respire, ela funciona como segunda pele do corpo. Camisetas esportivas são excelentes para isso.
- Calçado: Deve um calçado apropriado para trilhas e que também seja o mais confortável possível. Como alternativa inicial pode-se usar calçado de EPI (Equipamento de Proteção individual), já que possuem tecnologia para segurança pessoal e seu custo é baixo.
- Capa de Chuva: Para maior proteção do corpo, caso ocorra chuvas.
- Acessórios: óculos escuros, bonés, chapéus, etc.
- Blusa: Para locais frios.
- Anorak: Casaco conhecido como corta vento, fica por cima da blusa proporcionando mais aquecimento ao corpo.

Para descanso:
- Shorts, sunga, camiseta, biquínis, etc. Para curtir o local de destino (cachoeiras, lagos, etc).
- Pijama para a pernoite.
- Peças de roupas adicionais.
- Toalha para banho.

ALIMENTAÇÃO

- Alimentos: Prontos ou que sejam fáceis de preparar. Se no caso for preparar, deve levar também utensílios apropriados. Veja os Kits abaixo.
- Água: Para hidratação e preparo de alimentos.

EQUIPAMENTOS

- Mochila: É necessário que seja uma própria para trilhas, pois ajudará a equilibrar o peso e diminuindo o esforço dos ombros e das costas.
- Bastão de Caminhada: Utilizados para auxiliar na caminhada, principalmente em subidas.
- Perneira: São tipos de caneleira que vai proteger a canela da perna contra animais rasteiros entre outras ocorrências.
- Barraca: Os melhores são os que protegem da chuva e umidade. Seu tamanho vai depender da quantidade de pessoas que vão dormir dentro dela e o tempo de viagem.
- Colchonetes: São utilizados como "colchões" que auxiliam no isolamento térmico do corpo. Pode ser substituídos por isolantes térmicos, os mais baratos e mais leves são os de EVA com uma camada prateada.
- Saco de dormir: Oferecem conforto e protege do frio ao dormir.
- Lanterna: Para auxiliar em locais escuros e/ou a noite.
- Kits: Os principais são:

- Kit Pesca (somente lugares que possibilitem pescaria);

Lembrando que no caso de trilhas curtas, pode-se fazer uma filtragem do que levar e não esquecendo do que pode ser essencial.

Antes de partir para a trilha, forneça todas as informações da sua empreitada (partida, estadia, cronograma) a seus familiares e amigos, para o caso de acontecer algum imprevisto na caminhada. Durante e na hora de voltar, recolha todo o lixo que produzir, respeitando assim o meio ambiente.



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O CORVO

Autor: Edgar Allan Poe
Tradução e digitação: R. Xavier


Numa meia-noite agreste, quando lia, lento e fatigado,
Sonolento sobre volumes valiosos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, quando ouvi o que parecia,
O som de alguém que levemente batia a meus umbrais.
"Uma visita", disse eu, "E nada mais". 

Se bem que me lembro! Era no frio de dezembro.
E o fogo, esvaecendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu a alvorada desejava, toda a noite aos livros estudava,
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais,
Que mais nenhum homem chamará jamais.

O vago sussurro dos ondulantes reposteiros formais,
Meu espírito urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas acalmando a agitação que me assustava, levantei-me repetindo:
"É alguém que bate à porta, uma visita tardia aos meus umbrais";
"É só isto, e nada mais". 

Com o espírito fortalecido, sem hesitar declarei palavras tais,
"Senhor, ou senhora, de certo me desculpais";
"Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente, que apenas ouvi conscientemente".
Então abri, franqueando meus umbrais. Mas só havia trevas e nada mais.

E ao sondá-las profundamente, fiquei espantando horrivelmente,
Tendo sonhos tais que nenhum mortal ousou sonhar jamais.
Mas a imobilidade das trevas era infinita, de paz profunda e maldita,
Pronunciei um nome: Leonora. Houve apenas eco murmurando os meus ais.
Somente isto e nada mais.

Ao quarto retornei novamente, com a alma ardente,
Ouvi seguidamente um ruído batendo fortemente.
"Com certeza, esta bulha vem de minha janela"
Verificarei o que está nela e apurar que o que são estes sinais.
Deve ser o vento e nada mais.

Abri então a janela, e eis que entrou o que havia nela.
Um corvo majestoso digno dos bons tempos ancestrais.
Sem cortesia ou cumprimento, não parou em nenhum momento,
Seguiu em direção ao busto de Palas acima de meus umbrais.
Apenas pousou e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura.
Com o solene decoro de seus ares rituais,
Disse eu: "Tens o aspecto tosquiado, mas nobre e ousado".
"Diga-me pois, qual o seu título lá das trevas infernais?"
O corvo disse: Nunca mais!

Surpreso fiquei em ouvir esta ave desgraciosa falar com clareza,
Inda mais compreender significado tivessem minhas palavras tais.
Confesso que a nenhum homem foi concedido,
Uma ave pousada em um busto em seus umbrais,
Com semelhante nome: "Nunca mais"!

Mas o corvo, sobre o busto, não só proferiu aquelas palavras tais,
Como se nela toda a sua alma se declarasse mais.
Então em voz baixa murmurei: "Me tem deixado todos os meus amigos,
Amanhã também este se vai, assim como todos os outros foram iguais".
O Corvo disse: "Nunca mais".

Por frase tão bem elaborada, minha alma fora dilacerada.
Disse eu: "Com certeza, são únicas palavras usuais.
De algum dono aprendeu, cuja a alma percebeu,
Que a desgraça e o abandono tornaram-se principais.
E todo o louvor de sua esperança: "Nunca mais".

Mas a ave ainda induzindo sorrir a minha amargura,
Em uma cadeira sentei-me defronte dela e do busto em meus umbrais.
E ali sentado, tentei analisar de muitas maneiras,
Que queria esta ave negra agoureira dos maus tempos ancestrais.
Com aquele "nunca mais".

Assim me detive meditando, e nem mais uma palavra à ave dizendo.
Esta que cravava minha alma com seus olhos fatais,
E assim seguia adivinhando, ao espaldar da cadeira a cabeça encostando,
A cadeira de macio veludo azul onde Leonora outrora, se recostava entre sombras desiguais.
Ela não se encostará nunca mais.

Pareceu-me então que o ar tornou-se mais denso, como que perfumado por um incenso.
Balouçado por anjos, cujos passos em meu quarto soam musicais.
Disse eu: "Desgraçado! Deus por seus anjos concedeu-te tréguas,
Contra as saudades de Leonora que não esqueço jamais?
O corvo disse: "Nunca mais".

E disse eu: "Profeta! Ser de desgraça, pássaro ou demônio, contudo profeta"!
"Que sejas mensageiro do tentador, ou náufrago que a tempestade trouxe aos meus umbrais".
"A esta casa de ânsia e medo, nesta noite e este segredo",
"Diga-me! Suplico-te! Haveria um bálsamo longínquo a esta alma que atormentais?"
O corvo respondeu: "Nunca mais".

E disse eu: "Profeta! Ser de desgraça, pássaro ou demônio, contudo profeta"!
"Pelo céu que nos cobre, por Deus que ante de tal somos fracos e mortais".
"Dize a este ser entristecido, se ao chegar no paraíso prometido",
"Abraçaria a quem me foi santa e preferida, cujo nome sabem as hostes celestiais?"
O corvo respondeu: "Nunca mais".

E disse eu: "Por ser más as tuas palavras, partas. Retorne à tempestade e às trevas infernais".
"Não deixes uma só pena que ateste a mentira que profanaste".
"Deixe-me apenas em minha solidão. Retira-te de minha presença então".
"Tire o teu bico de meu peito e sua sombra de meus umbrais"!
O corvo respondeu: "Nunca mais".

E o corvo imutável, no busto de Palas continua intocável.
Seu olhar com brilhos infernais parecem pensativos e fatais.
A luz de minha lâmpada projeta sua sombra sobre o chão de formas tais,
Que minha alma, além da sombra no chão de projeções banais.
Não se levantará... nunca mais!